sexta-feira, 5 de abril de 2024

Como os linfócitos T CD8+ (citotóxicos) lutam contra os tumores

 


Em 1950, o virologista australiano Macfarlane Burnet estabeleceu o conceito de imunovigilância, que afirma a estreita relação existente entre o sistema imunológico e os tumores, tanto no que tange à eliminação de células anômalas antes delas se transformarem em tumores propriamente ditos, bem como na eliminação de células tumorais já existentes. Posteriormente, esse conceito foi validado pela observação do surgimento de mais casos de cânceres em pacientes imunossuprimidos.

 

Isso mostra que o sistema imune está vigilante, e quando acontece algo que suprimi a resposta imune, observa-se o aumento no risco em desenvolver câncer. 

 

Para uma melhor compreensão deste artigo, recomendamos a leitura deste outro texto – Entendendo os linfócitos naive, efetores e de memória.


Neste artigo, fundamentado no conceito de Burnet, vamos discorrer sobre a importância dos linfócitos T citotóxicos (CTL) na eliminação desses tumores. 

 

Quando associamos imunidade à supressão tumoral, imediatamente devemos lembrar dos CTLs CD8+, visto que é esse subtipo de linfócitos T que utiliza o killing como sendo a principal maneira de se defender contra tumores. Os CTLs conseguem êxito na sua função de imunovigilância, justamente pela sua capacidade em reconhecer e destruir células que expressam peptídeos derivados de antígenos tumorais associados às moléculas do MHC de classe I, que foi comprovado pelo seu desempenho positivo em estudos in vivo envolvendo animais acometidos por tumores gerados por carcinógenos e por vírus de DNA.  

 

Além disso, os CTLs tumor-específico ainda podem ser isolados em seres humanos com tumores estabelecidos, o que aumenta a possibilidade do desenvolvimento de medidas terapêuticas eficazes no tratamento de certos cânceres. Porém, ainda vale ressaltar a incapacidade de detectar CTLs tumor-específicos funcionais em alguns pacientes, devido à presença dos mecanismos reguladores empregados pelo próprio tumor para suprimir as respostas de CTL. 

Isso quer dizer que é possível não detectar a presença de CTLs funcionais no microambiente tumoral, pois o câncer acaba agindo para suprimir esse tipo de resposta e, assim, poder “sobreviver”.

 

Pode-se comparar o câncer com um microrganismo que tenta lutar, fugir da resposta imune para poder sobreviver.


Mas como ocorre a resposta dos linfócitos T CD8+ aos tumores? 

 

A maioria das células tumorais não é derivada das APCs (células apresentadoras de antígenos), então, elas não estão presentes nos órgãos linfoides secundários (Linfonodos, por exemplo); além disso, a maioria das células tumorais não expressa os coestimuladores necessários para iniciar as respostas de célula T ou as moléculas do MHC de classe II necessárias à estimulação de células T auxiliares (linfócitos T CD4) promotoras de diferenciação de células T CD8+  (pretendemos fazer um post para explicar esse mecanismo)

 

O que melhor explicaria essa resposta é a possibilidade das células tumorais, ou pelo menos seus antígenos, serem ingeridos pelas APCs, especificamente, pelas células dendríticas, que por sua vez fazem o processamento dos peptídeos tumorais, que são ligados e expostos na membrana celular, associados às moléculas de MHC de classe I para o reconhecimento das CTLs CD8+. Todo esse processo nós chamamos de apresentação cruzada, ou, simplesmente, cross-priming (pretendemos fazer um post para explicar esse mecanismo)

 

As células dendríticas transportam os antígenos tumorais para os linfonodos e se colocalizam com as células T naive, como é ilustrado na figura 1. Ademais, as APCs e as células T auxiliares são ativadas ao mesmo tempo, fornecendo os sinais necessários à diferenciação das células TCD8+ naive em CTLs tumor-específicos. Uma vez gerados, os CTLs efetores são capazes de reconhecer e matar as células tumorais em qualquer tecido, sem nenhum requerimento de coestimulação.



Figura 1: Resposta de linfócitos T citotóxicos (CTL) contra tumores. Abbas (2019).




As células TCD8+ contam com a ajuda das células TCD4+.

 

Os efeitos antitumorais das células Th1 podem refletir seu papel comprovado na intensificação das respostas da célula T CD8+ e na ativação de macrófagos, via secreção de fator de necrose tumoral (TNF) e interferon-γ (IFN-γ), já que é o segundo quem pode aumentar a expressão do MHC de classe I na célula tumoral, bem como a sensibilidade à lise pelos CTLs. A relevância do IFN-γ na imunidade tumoral é demonstrada pelo aumento do surgimento de tumores em camundongos knockout desprovidos dessa citocina, de seu receptor ou de moléculas sinalizadoras induzidas pelo IFN-γ.



Referência:

ABBAS, A.K; LICHTMAN, A.H; PILLAI, S. Imunologia celular e molecular. Elsevier, 9 ed. 2019.


Texto: Matheus Vinícius Cardoso Santos

Revisão técnica: Diego Moura Tanajura 


quinta-feira, 7 de março de 2024

Estudo patrocinado por grupo antivacina prova que não há relação entre vacinas e autismo

 


Primeiramente, vale ressaltar que o TEA (transtorno do espectro autista) é, segundo o Ministério da Saúde, tido como um distúrbio neurocomportamental caracterizado por alterações das funções do neurodesenvolvimento do indivíduo, interferindo na linguagem, na socialização e no comportamento. E que, no ano de 1999, o FDA (Food and Drug Administration) determinou a redução do timerosal em imunizantes, sendo ele um composto que apresenta propriedades bactericidas. Uma vez que, a aplicação de vacinas que o contivessem em crianças de idades iniciais poderia exceder o limite de metilmercúrio estabelecido pelo Environmental Protection Agency’s (EPA), substância presente no conservante utilizado em vacinas de múltiplas doses, ou seja, que vacinam mais de uma pessoa por frasco.

 




Com tal determinação de reduzir o uso do timerosal em imunizantes, inúmeros estudos foram feitos para analisar a associação entre o composto e o TEA. Nessa linha, analisaremos a seguir um estudo patrocinado pela SafeMinds, um grupo antivacinação, que investigou a relação entre administração de vacinas com timerosal em macacos nas idades iniciais (para simular a vacinação em crianças) e o desenvolvimento de TEA ou de neuropatologia. Para a realização desse estudo, foram administrados imunizantes que contivessem o composto nas concentrações anteriores e posteriores a sua redução, e adotados os esquemas vacinais dos anos 1990 e 2008 para crianças. Além disso, foi respeitada a proporção de tempo de vida entre humanos e primatas, para que houvesse uma adequada comparação entre os resultados obtidos e o desenvolvimento humano (importante essa abordagem).

 

Para a obtenção dos resultados, o estudo comparou o desenvolvimento social e comportamental do grupo e, também, a quantidade de células de purkinje no cerebelo dos primatas, alterações no tamanho de seus sistemas límbicos e anormalidades na amígdala e no hipocampo desses animais, uma vez que todas essas alterações estão relacionadas a manifestação do autismo. Como resultado, foi possível perceber que não houve nenhuma alteração em nenhum dos aspectos analisados, tanto nos aspectos físicos, como a densidade das células de purkinje, quanto no aparecimento de qualquer estereótipo comportamental típico do TEA.

 

Além disso, há uma linha de pensamento que afirma a possibilidade do transtorno do espectro autista estar relacionado com a vacinação pré-natal. Em vista disso, nesse mesmo estudo, macacas prenhas, cujos filhos foram designados para o grupo que seria vacinado com o esquema de 2008, receberam uma dose do imunizante para influenza que continha timerosal. Dessa maneira, foi mimetizada a recomendação da vacinação de mulheres grávidas e possibilitada a análise da exposição ao conservante em idade fetal. E mais uma vez, não foi observada nenhuma mudança cognitiva nos primatas. Esse estudo se soma a outros estudos, aumentando a evidência disponível sobre a segurança da vacinação, mesmo em crianças.

 

Assim, apesar do Metilmercúrio quando administrado oralmente está associado a alterações comportamentais em primatas, a administração do composto em vacinas não apresenta nenhum impacto significativo que possa ser possível o associar ao TEA.

 

Comentários do professor:

 

O interessante desse artigo é o que aconteceu nos bastidores. O resultado encontrado no estudo mostrando que as vacinas e seus componentes, principalmente o timerosal, não estão relacionados com o TEA deixou o pessoal antixav insatisfeito. Ora bolas, o estudo foi financiado por eles, mas eles não queriam que o mesmo viesse a público! O grupo antixav que patrocinou o estudo tentou impedir a sua publicação. No entanto, os cientistas responsáveis pelo trabalho foram adiante e publicaram.


Texto escrito por: Hingrid Stephani Rodrigues Ribeiro

Revisão técnica: Diego Moura Tanajura

terça-feira, 5 de março de 2024

O menino da bolha – Parte 2 de 3

 

Este texto é uma mera transcrição de uma trilogia de posts que fizeram muito sucesso no início do @imuno_News lá no Instagram

Veja aqui o post original



 

No nosso último post falamos sobre os dois tipos de imunodeficiências - primária e secundária (caso não tenha lido, pare a leitura e clique aqui). Também falei rapidamente sobre as imunodeficiências combinadas graves (SCID) e as consequências de um paciente com SCID tomar uma vacina atenuada.

 

No post de hoje vamos aprofundar um pouco sobre SCID explicando alguns mecanismos imunológicos.

As imunodeficiências que afetam tanto a imunidade humoral (Células B e produção de anticorpos) quanto a imunidade mediada por células (como as células T CD4 e CD8, por exemplo) são conhecidas como imunodeficiências combinadas graves (SCID).

Na SCID ocorre um distúrbio no desenvolvimento e função das células T (imunidade celular), células B (imunidade humoral), podendo até afetar as células NK (imunidade inata).

Calma aí, então o paciente pode apresentar deficiência tanto na imunidade inata quanto na adaptativa?

Isso mesmo!! Foi por isso que no último post eu disse que pessoas com SCID NÃO podem tomar vacinas atenuadas. E isso explica as infecções recorrentes que esses pacientes desenvolvem, inclusive infecções oportunistas.

Ah, um ponto importante - alguns pacientes com SCID podem apresentar comprometimento dos linfócitos T e linfócitos B NORMAIS.

Então esses pacientes conseguiriam produzir imunoglobulinas (anticorpos)?

Mais ou menos... Vou explicar melhor...

Mesmo com as células B normais, esses pacientes apresentam uma baixa produção de anticorpos por conta de um detalhe:

Tome nota que isso é importante!

As células B precisam da ajuda das células T para produzirem anticorpos. Por isso, mesmo que alguns pacientes apresentem células B saudáveis, elas não terão muita "utilidade" pela ausência ou defeito nas células T. Veja um pouco sobre o assunto aqui.

Se esses pacientes apresentam falhas tão graves na imunidade, eles morrem logo após o nascimento?

Nem sempre... Por conta da imunidade passiva (anticorpos recebidos da mãe), essas crianças conseguem ficar imunes às infecções por alguns meses...

Existe cura para algo tão grave?

Sim, hoje existe cura. O tratamento mais comum é o transplante de medula óssea.

 

Referências

ABBAS, Abul K.; LICHTMAN, Andrew HH; PILLAI, Shiv. Imunologia celular e molecular. Elsevier Brasil, 2019;

HEIMALL, Jennifer.; PUCK, Jennifer; TEPAS, Elizabeth. Severe combined immunodeficiency (SCID): An overview. UpToDate. Waltham, MA: UpToDate, 2019.

Autismo e vacinas - coletânea de textos

 

Foi no ano de 1998, que o médico Andrew Wakefield publicou um estudo falso relacionando imunização contra o Sarampo, a Caxumba e a Rubéola por meio da vacina Tríplice Viral com o transtorno do espectro autisma (TEA). De lá para cá, incontáveis vezes, a vacinação tem sido alvo de críticas e de desconfianças a respeito dessa e de outras informações equivocadas. Dessa maneira, torna-se cabível esclarecer à população a respeito dessas associações errôneas com a vacinação, e por isso, através de uma série de postagens iremos analisar artigos científicos com a finalidade de trazer informações seguras e com maiores evidências científicas no assunto.


1) Como surgiu o mito da ligação entre vacinas e autismo;

2) Vídeo vacinas e autismo;

3) Estudo patrocinado por grupo antivacina prova que não há relação entre vacinas e autismo.


Obs.: Os materiais estão em produção e serão acrescentados aos poucos.

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Texto escrito por: Hingrid Stephani Rodrigues Ribeiro

Revisão técnica: Diego Moura Tanajura

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

O menino da bolha – Parte 1 de 3

 

Este texto é uma mera transcrição de uma trilogia de posts que fez muito sucesso no início do @imuno_News lá no Instagram

Veja aqui o post original 


Card do post original no Instagram publicado em 8/7/2019

O post de hoje foi resultado de uma enquete no nosso stories (lá em 2019), onde perguntei se os seguidores conheciam o termo "SCID" que significa Imunodeficiência Combinada Grave (SCID, do inglês - Severe combined immunodeficiency). 86% responderam que não conheciam. No stories seguinte perguntei se já tinham ouvido falar do menino da bolha, e 48% responderam que sim.

 

O menino da bolha (bubble boy) tinha uma imunodeficiência congênita (SCID) que afetava tanta a sua imunidade humoral, quanto a celular. Essa história do menino da bolha vou deixar para o próximo post. Antes, é importante discutirmos um pouco sobre as imunodeficiências.

 

Diariamente somos desafiados por muitos microrganismos infeciosos e seus produtos Tóxicos. Desta forma, para conseguirmos sobreviver é muito importante que o nosso sistema imune esteja íntegro.

 

Defeitos em um ou mais componentes do sistema imune podem causar distúrbios graves e muitas vezes fatais, que são chamados doenças por imunodeficiência. As imunodeficiências combinadas (SCID), por exemplo, tornam os pacientes suscetíveis a infecções por TODAS as classes de microrganismos.

 

Para se ter uma ideia da gravidade, se este paciente tomar uma vacina com microrganismo atenuado, por exemplo a vacina do sarampo, ele certamente desenvolverá a doença. Observem que em pessoas com o sistema imune normal, a vacina é segura!

 

As imunodeficiências são classificadas em dois grupos:

1) Imunodeficiência congênita ou primária

• São defeitos genéticos que resultam no aumento da suscetibilidade à infecção. Então, a pessoa já nasce com a deficiência que foi herdada dos pais. Por exemplo, a doença do menino da bolha (SCID).

2) Imunodeficiência adquirida ou secundária

Não são doenças hereditárias, mas se desenvolvem como consequência de desnutrição grave, câncer disseminado, tratamento com drogas imunossupressoras ou infecção de células do sistema imune (pelo HIV, por exemplo).

 

Para saber um pouco mais sobre imunodeficiências, veja esse nosso post aqui.

 

Referência

ABBAS, Abul K.; LICHTMAN, Andrew HH; PILLAI, Shiv. Imunologia celular e molecular. Elsevier Brasil, 2019

Post 1 de 3 - Morte celular: Necrose x Apoptose

Este texto é uma mera adaptação de uma trilogia de posts do @imuno_News lá no Instagram Veja aqui o post  original . Para compreender melhor...

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